quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Catando conchinhas quebradas

Andei visitando um blog (que jeito horrível de começar um texto!!! verbo de ligação + gerúndio AFFF, como tô mal!! ECA!!) uma cartunista frustrada, assim como eu jornalista frustrada e designer nas horas vagas - cof cof - digo, de apuro, quando à beira da morte por inanição. Logo posto mais sobre o blog dela, no momento ainda não obtive retorno, enfim... num trecho do post "avise se for sumir" ela conta sobre o primeiro beijo com um amiguinho, que de repente, a beijou e de repente, sumiu. E elas em suas primeiras dores de amor e abandono não sabia o motivo - a gente nunca sabe - e apenas anos mais tarde ela soube que o garoto tinha sido atropelado e morrido na hora, pouco tempo depois de dar o beijo inesquecível nela...


Além de várias outras semelhanças entre eu e essa garota do blog, lembrei-me de um amor de praia que tive... acho que nos meus tenros 8 anos, por volta disso. Se não me engano em Peruíbe. Foi numa viagem inesquecível a qual minha mãe prendeu meus 4 dedos inteiros na porta do carro, sabe aquela batida forte na porta, propositalmente já sabido o carro véio ter pobrema?? Pois é.. meus dedos ficaram no meio. E sem brincadeira, acho q durante uns 5 minutos.. até minha mãe - que nunca se importou comigo de fato, só com o que os outros pensavam dela em relação a mim.. o tipo de mãe q toma conta dos filhos só pros outros dizerem que ela é uma grande mãe PFUI! até ela perceber que enquanto puxava minha outra mão pra eu acompanhá-los eu estava literalmente PRESA no carro pela outra mão, obviamente eu chorava, mas eu nunca fui do tipo de criança chata e birrenta, se eu chorava é pq eea sério, na verdade isso nunca fez mta diferença, afinal nem sendo assim ela me levava à sério.

Tirando essa parte ruim - péssima, logo no primeiro dia - conhecí um garoto que estava numa casa ao lado, ele era da capital SP e eu do interioRRR. Nós dois éramos mto quietos. Muitos olhares e gestos, poucas palavras. Pela primeira e única vez eu preferí ficar em casa do que correr pro mar...

Ele tinha liderança e consideração. Ele era um moleque muito amado que se virava sozinho.. e eu uma menina desengonçada - afinal meninas têm q se portar como meninas, e eu era praticamente um moleque que vivia pendurada na goiabeira da minha casa, às vezes no telhado da lavanderia... - e eu era um 'peso' pra família, ninguém tinha saco de entreter uma criança mais, achavam que me jogando suzis e barbies eu calaria minha boca e os deixaria em paz, assim como eu faço com meu cachorro pra ele parar de latir jogando um osso pra ele.

Nunca eu e o garoto falamos de problemas familiares, mesmo eu sempre tendo sido mais madura que minha idade cronológica, não era esse nosso interesse. Acho q pela primeira e única vez eu me sentí criança de verdade, com ele. Pulavámos o muro da casa pra nos encontrar, o dia todo, todo dia, cumpríamos nossa tarefa de filhos (almoçar e brincar na sala) e fugíamos pulando muro, corríamos pela rua em direção à praia, vez em qdo sem perceber, estávamos de mãos dadas... e nada além de uma maravilhosa compania nos passava na cabeça...

Os adultos, já disvirtuados, viam naquilo a grande merda q nos persegue até hj "tá de namoradinhooooo-o-u-oou". E graças a deus nem tinhamos idéia do q era aquilo, tinhamos, achavamos q era um SACO esse papo de ser infeliz e ter q estar com outro por obrigação.. a gente era feliz e tinha prazer em estar junto, algo q em nada se parecia com aqueles tediosos namoros que nos exibiam irmãos e pais.

Um dia conseguimos corer pra praia, juntos, de mãos dadas... ele me disse que não deixaria meus pais ficarem bravos comigo, e eu acreditei, e pela primeira e única vez na minha vida um homem cumpriu o que ele falou.

Na praia catamos conchinhas, de todos os tipos.. as mais lindas e enormes ele trazia e dava pra mim, ele queria achar a maior e mais linda só pra me dar.. me lembro como se fosse hj ele dizendo isso... Gente do céu!! Ele se preocupava até com minhas bonecas!!! Dizia que algumas conchinhas poderiam virar pratinhos pra eu brincar - o que me lembra que uma vez começou a chover e ele viu q eu tinha esquecido uma boneca pra fora da varanda, ele pulou o muro só pra deixar ela na parte coberta...

Tá me dando até vontade de chorar agora... Onde será que ele está? O que aconteceu com ele? Como era o nome dele? No que trabalha? Tá vivo? Casou? Qtos filhos tem??? Tá feliz??

Nem me lembro do rosto dele direito.. deve ter mudado mto, mas tb penso naqueles que cruzam nosso caminho só naquele momento, só praquilo.. e nada mais. Tudo aconteceu só pra eu ter essa lembrança linda e me apegar a ela, pra ter a certeza que um dia um homem (garoto) me tratou com o mais puro amor e consideração que alguém pode ter.

- Seus pais falam alto né?
- é... muito...
- isso deixa a gente triste né?
- é...
- Minha mãe falou que eles conversam alto, que é coisa de adulto, a gente num entende
- é... a minha fala a mesma coisa
- mas vc tá triste
- tô, eu queria parar de escutar eles falando alto...
- Então venha aqui, dá a sua mão

E ele correu comigo pra bem longe, e nos dois ofegantes:

- Acho que daqui não dá mais pra escutar, dá?
- não, não escuto mais eles
- Então vamos tomar um sorvete que minha tia me deu dinheiro

Puxa vida... ele me socorreu, me ajudou, me acalentou, me consolou, me confortou... Sem eu pedir, sem eu sequer explicar qqr coisa q eu sentia...


Onde será que ele está agora?

Eu queria tanto tomar um sorvete na beira da praia... sem falar nada, sem discutir minha dor, sem tentar achar solução pra nada.. só vivendo, simplesmente, de mãos dadas, sorrindo pro mar e feliz por alguem cuidar de mim só por prazer.
Estar comigo, por estar com vontade de estar comigo. E fazer de cada minuto algo inesquecível... tanto é que isso aconteceu há 25 anos atrás, e eu não me esquecí.

E jamais esquecerei.