Um homem perde a graça quando deixa de escutar uma mulher, afinal, se ele não escutar pra simplificar de modo óbvio, coerente e direto as mazelas que uma mulher, complicada por natureza, amarga durante a existência dela, pra quê mais eles servem?
Se quero, penso se quero mesmo. Se compro, penso e resolvo o que fazer com aquilo. Se acho, arrumo um jeito de usar ou de me livrar. Se ganho, sorrio; daí vejo se quero. Se dou, dou inteiro. Se pico, pico tudo. Se corto, uns são maiores, outros são menores. Se faço as mãos, talvez faça os pés. Se faço os pés, sempre faço as mãos.
Se meu filho repete de ano na escola uma vez, sou doce e acolhedora. Se ele repete a segunda vez o mesmo ano, sou chata e persuasiva. Se ele repete a terceira vez o mesmo ano, vai pro supletivo. Se ele repete o supletivo, eu volto pra escola.
Se me sinto sozinha, leio um livro, escrevo... Se me sinto muito sozinha, assisto um filme de amor e choro. Se me sinto muito, mas muito, muito sozinha, entro num bate-papo adulto e mostro o peito.
Se o peixe do meu filho morrer, eu compro outro antes de ele perceber. Se ele perceber, daí sim eu falo sobre a morte e sobre o amor de uma mãe.
Se minhas unhas falassem, contariam sobre diversos arranhões, de dentro pra fora e de fora pra dentro.
Se estivesse viva, minha gata Daphne estaria com 14 anos. Ela se suicidou aos 10. Pulou da sacada para não me deixar vê-la definhando doente. – Ela sempre foi mais forte que eu.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Pensamentos de uma mulher de vanguarda do segundo milênio
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